quarta-feira, 19 de novembro de 2014

NAVE # 1



Conceito Ida

Formulado por Thiago Magnos, há cerca de quinze anos, o conceito “IDA SONORA” define uma viagem de autoconhecimento regida pelo som. Posteriormente, o significado do termo é ampliado, resultando na publicação o texto Conceito IDA, que define seus principais preceitos. IDA, é o deslocamento da consciências – simbolizada dentro da experiência pela NAVE –  no imaginário, que guarda as criações da imaginação e demais memórias.

Ida: Deslocamento da consciência no imaginário a partir de uma Origem e com um Término.
O substantivo Ida, do verbo ir, é usado aqui com o significado de deslocar (ir), cujo objeto em deslocamento é a consciência e o lugar onde ele ocorre é o Imaginário.

Imaginário: onde estão contidas as criações da imaginação e as demais memórias das pessoas.

Nave: Consciência ou conjunto de consciências que mantém-se sincronizadas por alguma imagem em comum que as localiza em um ponto do imaginário. Esta sincronicidade faz com que essas consciências partilhem de uma imagem local comum,como tripulantes de uma nave que situam-se no mesmo ambiente mas olham por janelas diferentes tendo percepções distintas, mas ligados por uma referência comum.

Artêsta: quem se utiliza do conceito IDA e o seu modelo de imaginário para trazer seus conteúdos para a realidade física, estes podendo ser utilizados tanto como material de criação artística, como de autoconhecimento, com fins terapêuticos ou não.







Topo do morro. Domínio visual da cidade. Chegamos à República do Castelo no horário marcado para o começo da performance que o Sarau da Gruta incorpora à pesquisa de imagens do projeto IDA. IDA (por coincidência, as primeiras três palavras do meu nome) me faz pensar, temerosa, numa viagem sem volta, que é o que acontece em toda superação. O ambiente me resulta estranho, até ameaçador, parece apontar para o devassamento na escuridão da sala escolhida como espaço de representação. A sala de uma República, que paradoxalmente é um espaço privado, familiar e ao mesmo tempo transitório, a moradia de um grupo de jovens estudantes, alberga uma certa pretensão de ecumenismo através da arte. Porque há dança, há música e há poesia. Há máscaras nas paredes, cartazes explicativos, utensílios e instrumentos musicais, tudo misturando-se com as marcas do cotidiano impregnadas nos móveis para o repouso, nas estantes com livros espalhados pelos vários andares do Castelo, sugerindo ainda nas escadas, nas portas entreabertas dos dormitórios, a possibilidade de uma vida mais privada e misteriosa, que sedutoramente nos convida a permanecer por ali, rondando, ávidos de novas experiências.
Uma moça com chapéu de veludo verde anuncia a entrada dos performers, dançarinos e poetas. Um rapaz sério e concentrado, usando um sinalizador de cor laranja fosforescente, semelhante àquele utilizado pelos ciclistas, pelos operários que trabalham à noite nas ruas da cidade, parece afundar-se no teclado, de onde extrai sons que percebo instigantes na sua estranheza. Tudo combina neste lugar repleto de jovens que bebem cerveja ecológica, conversam, tomam conta das crianças, dispensam o tabaco processado quimicamente e se concentram em substâncias mais naturais, ideais para enxergar desde o terraço superior, inúmeros pontos coloridos que transformam o horizonte da cidade num espaço de maior humanidade.
Entram os corpos. Corpos jovens, masculinos, curtos de roupa, avermelhados pela tonalidade do urucum. Quatro corpos que se espreguiçam, avançam para o centro de um círculo traçado com giz branco, armam-se como um escudo, como uma oca, desarmam-se e espalham, sobre os contornos do círculo, uma substância inflamável que precipita o fogo, o calor, enquanto reflete nas paredes, na própria luminosidade dos corpos pintados, a promessa do ritual libertador. Os corpos se entrelaçam, não permanecem estáticos nem um segundo só, fundem-se na dança ao redor de um fogo duplo, pois no centro do círculo agora tem, também, uma vasilha onde chamas laranjas e vermelhas criam novos reflexos. A poesia brota como uma voz única desses quatro corpos que agora são um corpo só, uma escultura poderosa, mutante, promessa de unidade e pureza.
A música não para, o fogo se multiplica e se projeta na parede, enquanto o público assiste, acomodado no chão, no sofá, nas poltronas do fundo da sala, ou de pé, atento, curioso, admirado da força que brota da massa de torsos, pernas, braços, que apenas se desentrelaçam para voltar a ocupar um lugar de tensão, um lugar de força. Todos parecem transfigurados, possuídos, concentrados, atentos à necessidade de fazer dos quatro corpos uma mesma unidade. Pergunto-me de onde extraem a energia, pois é mais do que o vigor da juventude, mais do que o resultado de corpos treinados na dança contemporânea, nas artes marciais, na capoeira. Sei que minha pergunta é retórica: ela vem da entrega, da condição única de se expressarem como artistas, do imaginário que vai surgindo em cada rodada de movimentos improvisados e ao mesmo tempo perfeitamente acoplados um ao outro. Parece mecânica celeste: pura libertação, puro risco, des-centramento que expande o círculo para agregar novos corpos vindo do público.
Entra uma jovem mulher, tira suas vestes, mostra seu corpo. Da sua beleza mana o erotismo. Ela estende a mão procurando cúmplices, mas não insiste, porque ninguém aqui deixa de participar, seja com movimentos ou com a passividade do voyeur que entrega-se à beleza do ato sem renunciar à liberdade de permanecer fora do território da improvisação. Ali estamos todos, acredito, fundidos num mesmo desejo.
Agora mais do que antes compreendo que a IDA não tem volta, cada movimento contribui para reforçar a ideia de uma apresentação baseada em conceitos, agregando à proposta um conteúdo simbólico-semântico que permite a proliferação da experiência efêmera em variadas formas de registros: fotografia, vídeo, escrita, além da memória como suporte biológico que salva a beleza do evento de qualquer fugacidade. A performance consolida-se no tempo, ganha um novo protagonismo. Agora o fogo não é o único discurso, a palavra poética passa de boca em boca, de mão em mão. A vasilha ardente colocada no centro do círculo de giz, depois círculo de fogo, circula entre os presentes, que depositam nela cópias de poemas escritos: a palavra é consumida pelas chamas, o registro do que parece definitivo, imutável, vira cinza, ela já não é apenas discurso, é também gesto, condição única da teatralidade e do artifício.
A oca humana é agora escultura ecuménica dos sentidos, da criação pura sem condicionamentos. Mais alguém (eu, todos, talvez?) nesse recinto onde o privado e o público fundem-se harmoniosamente acaba de abandonar qualquer condição sem renunciar à beleza da arte. O entrelaçamento da poesia, do fogo, do gesto individual se deixando levar pela música e pela dança, transformam a representação em ato coletivo, em vívida reflexão sobre esse artista que todos levamos dentro de nós.


Idalia M. Arnaiz



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