quinta-feira, 27 de novembro de 2014

NAVE # 2


A pessoa artêsta é aquela que mergulha nas ondas do imaginário. O imaginário é um oceano infinito, dentro de algo eternamente finito – a forma. Pode-se dizer que a artêsta é uma gota, e seu imaginário é o oceano. A gota se derrama no oceano porque esse é o seu anseio essencial. Num oceano infinito existem riquezas infinitas. O trabalho da artêsta é extrair as riquezas e lapidá-las em obras de arte. Assim, a artêsta é um tipo de ponte entre a consciência e o inconsciente.” (A Artêsta e a Escola de Artêstas)


Dinâmica de grupo II
Vendo a si e ao outro

Esta dinâmica tem uma diferença processual significativa em relação à primeira. Na Dinâmica de grupo II, os participantes devem voltar a sua atenção à descrição de imagens de um dos participantes. Portanto, enquanto um fala, os outros tentam reproduzir as imagens descritas, como se fosse estabelecida uma narrativa em comum. Após o término da descrição do primeiro participante, o próximo participante pode optar por romper completamente com as imagens da descrição anterior, produzindo uma nova, ou partir das imagens anteriores e a partir delas introduzir outros elementos. Após todos os participantes terem terminado sua descrição, são feitas algumas perguntas, são registradas as respostas e por último o orientador da terapia faz algumas observações, se necessário.

A característica essencial desta dinâmica é que ela permite ver ou sentir o interior da privacidade do outro, a partir de um nexo correlato de imagens. Ou seja, o outro entra - parcial ou totalmente- em seu imaginário, através do foco de atenção. Ao reproduzir o que o outro está visualizando, as emoções experimentadas pelo primeiro podem ser facilmente observadas pelo segundo. Com isso, o participante se depara com diversas emoções, advindas de diversas pessoas, algumas das quais despertam nele próprio emoções negativas, o que é extremamente significativo para o propósito desta terapia, porque isso irá forçar a pessoa a olhar ou a sentir algo que em geral permanece escamoteado ou que surge apenas como algo momentâneo e desagradável. Esse é o momento exato para observar-se, para conhecer-se. Portanto, a visualização comum de imagens tem o atributo de refletir aspectos do imaginário do outro em seu próprio imaginário, estabelecendo-se com isso um tipo de transfusão de imagens, significados e emoções.

Existem diversos métodos de fazer com que a pessoa reaja emocionalmente, afim de que ela perceba como uma determinada emoção funciona, afetando seu estado físico e mental. Extroverter o que estava introvertido e preso é a função básica da terapia. No caso da Terapia do Imaginário, isso é feito através da visualização consciente de imagens. O mero fato de nunca ou raramente olharmos para nós mesmos é suficiente para justificar a relevância de qualquer método com esse objetivo – o de extroverter conteúdos represados-, pois, por não estarmos conscientes de nosso imaginário, também não podemos alegar que estamos conscientes de nós mesmos, porque o imaginário condensa em si mesmo a totalidade.

Materiais:- Tapa olhos e/ou tapa ouvidos
- Caderno de registro
- Gravador

Obs: A terapia deve ser realizada num lugar escuro e silencioso. De preferência, as pessoas devem ficar deitadas, ou sentadas confortavelmente. Grupos de no máximo 4 pessoas. 








                                                

Entre a decolagem e o pouso
A viagem.

Pouso sem ser ave:
é NAVE.

Nave voa que nem ave.

Onde ela vai te deixar

Ninguém pode adivinhar.


Rota sonhada

Vida magoada.

Idalia M. Arnaiz











A Gruta


Quando me remeto a palavra gruta,

Sempre lembro a dos índios

Sem contar que não é comum

Sequer usual ou aceitável

Enfim, quando criança

Tudo se aceita, enfeita e eufemiza

Nasce-se de pé de couve ou se é trazido

No bico de uma cegonha forte e alegre

Que entrega na casa certa, de sua mãe

Assim, quando entro em minha gruta

É impossível não entrar no universo subjetivo

A gruta que abriga luz, frio, calor e chuva

Que abriga e acalenta projetos, rebentos e concertos

A gruta também nasceu de um jardim, de lá vieram

Todos os talentos que nos acompanham, vitais,

Como a mineralização da rocha o é para a geologia

A morfologia das vozes que foram se afinando num Augusto

Colosso talento ou na voracidade dos Bobs com seus mundos próprios

Das tantas Fernandas, Meires, Raquéis e Ricardos, bedéis

Da cultura que se amalgama numa Companhia de corpos, nômades em seu cansaço

Se agrupam em muitos coletivos, no jardim onde tudo germinou

A gruta saiu da crostra da terra e floresceu também em castelos e cursinhos

A gruta criou pernas e agora engatinha pelo mundo das paredes de giz, dos dry walls

A gruta agora se reconfigura num outro coletivo que abriga e se veste de mil corpos dançando

E rasgando o céu, aterrisam à entrada da gruta com seus cantos e gorgeios orquestrados

Essa gruta tornou-se palco que se torna pequeno para a expectativa em torno dela, por isso dela muitos saíram

Às vezes passeiam na Augusta com as pimentas do crente andarilho que vai à meca dos mercados

Direitos, esquerdos, anjos tortos, perigosos, daqueles que deus desaconselhou a criar, todos saíram da gruta

Da garganta do mundo com todas as secreções minerais das estalactites e estalagmites, brancas, coloridas

Espadas que armam as vozes que ecoam da boca da gruta que se torna o lar dos poemas, corpos e cantos.


Sérgio Severo



Diretor Geral
Javier Morejón






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